casamento

Era uma vez um homem que não acreditava mais em sentimentalismos, ele achava que relacionamentos, depois de uma certa idade, eram mais práticos, racionais.


E era uma vez uma mulher que não acreditava em contos de fadas. “O amor é uma construção”, ela dizia. E é. Mas quem disse que, ao construir o amor, não existe magia?


Há 10 anos atrás, em um dia chuvoso de uma – nem um pouco romântica – Operação Delegada, esse homem e essa mulher se conheceram. Não era para ela estar ali, mas de que forma curiosa o destino trabalha, não é mesmo? Ela foi e viu um rosto meio conhecido, se aproximou só para dizer que não ia ficar ali, mas ele a convenceu a ficar e ir jantar com o restante da equipe. O jantar virou uma carona para ir embora, que virou uma parceria de trabalho mais frequente.




O tempo passou e surgiu um convite para algo mais informal: ele ligou e disse:

- Oi, tudo bem? Vamos ali beber uma cerveja?

Ela aceitou e... ODIOU! Ele não saía do telefone! Mas no fim do encontro ele achou que conseguiria um beijo e ela – muito decidida – disse>

- Não, não quero um beijo, mas aceito um abraço... - e acabou o beijando.


Eles foram se aproximando, mas o combinado era “viver um dia de cada vez”. Isso não foi um problema, não estava nos planos dele entrar em um relacionamento e nem nos planos dela. A única coisa que ela tinha certeza de que queria era ter um filho, mesmo com os médicos dizendo que isso não aconteceria por um problema de saúde em que ela precisaria tirar o útero. E até tentaram tirar esse útero daí, mas no dia da cirurgia, deitada na maca, o médico chegou e disse:



- Sua cirurgia não vai acontecer, não tem água no hospital.

Que absurdo! Que revolta! Que perda de tempo! Ela voltou para remarcar a cirurgia e o médico não estava. Ela voltou mais uma vez e o médico não estava de novo. NÃO É POSSÍVEL!


Sua amiga sugeriu que ela buscasse uma segunda opinião depois de tudo isso e o médico recomendado por ela disse:

- Eu não vou fazer sua cirurgia, você é nova, pode fazer um tratamento.

Mas ela ia fazer tratamento para ter um filho com quem?


Mais uma vez o tempo passou e em um dia de sol escaldante indo visitar sua amiga, ela se deparou com uma marca em seu carro: um pezinho de bebê com todas as ranhurinhas da pele. Mas que tipo de pessoa coloca o pé de um bebê em um carro sujo e quente desse jeito?



Ao se juntar com suas amigas, ela contou indignada sobre o caso e ouviu de volta tudo o que ela não estava interessada em ouvir no momento:

- Já te ocorreu que isso pode ser um sinal de Deus?

- Ah, um sinal de Deus? Por favor né!

E ela pensava “Tantas mães irresponsáveis por aí e eu só queria a oportunidade de ser mãe”.


O tempo estava acabando... Não tinha filho, não tinha relacionamento, ela vivia um dia de cada vez, o que ela podia fazer? Que vida injusta! Saiu, foi para a casa da mãe da sua amiga, bebeu, dormiu, se divertiu, cantou “morena pé de cana”... No final de semana seguinte, após um jantar na casa de sua irmã, discutiu com o homem com quem estava vivendo um dia de cada vez e terminou o que mal tinham começado.


No dia seguinte, ela foi fazer os exames para se preparar mais uma vez para a cirurgia que antes não tinha acontecido. Quando o médico iniciou o exame, ele disse:

- Olha só, você está grávida de 7 semanas!



A primeira pessoa a saber disso foi sua amiga que sempre dizia “tudo é no tempo de Deus”. Era só uma ligação informativa, ela não queria um conselho. Disse que não ia avisar o pai, ela ia criar aquela criança sozinha, o filho era só dela. Mas sua amiga não desistiu e conseguiu convencê-la. Ela ligou para o parceiro e combinou de encontrá-lo para dar a notícia da forma mais racional possível. Ele de alguma forma já sabia e disse:

- Que bom! Não era isso o que você queria? Eu vou te dar tudo o que você precisar.


E a partir daí decidiram que iam tentar construir uma história juntos, porque o que existiu antes nem era uma história. Nem existiu um pedido de namoro, a vida só foi acontecendo.


Até o dia que ambos pensaram que a vida não ia acontecer mais: ela ficou doente, foi para o hospital e ele achou que ali seria o fim, mas quando ela voltou da segunda cirurgia pela qual precisou passar, ele disse “é agora ou nunca!” e a pediu em casamento.




Esse homem e essa mulher estavam ali na minha frente na noite do dia 05 de agosto de 2022 em um altar. E cada pessoa ali presente fez parte dessa história em momentos de alegria, de tristeza, de luta, de dor, de comemoração e principalmente de acolhimento.


Os contos de fadas não existem, mas a gente pode fazer a nossa própria versão deles.


Albert Einstein disse que “só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vive-la como se os milagres não existissem. A segunda é vive-la como se tudo fosse um milagre”. Eu escolho ver milagres em todos os acontecimentos: em um encontro inesperado em um trabalho que uma das partes não deveria ir, na falta de água do hospital que impede uma cirurgia de acontecer, na marca de um pé de bebê em um carro sujo e quente, em um relacionamento que talvez estivesse fadado a não acontecer se não fosse a interferência de um pequeno milagre que hoje chamamos de Arthur Miguel, em duas pessoas andando de braços dados em um corredor de hospital cantando a marcha nupcial, em um casamento em um castelo.



Como disse sua amiga, inúmeras vezes, “tudo acontece no tempo de Deus”. Não é no nosso. E a gente tem essa mania de achar que a gente sabe mais e sabe melhor, e mesmo que a gente planeje a nossa vida nos mínimos detalhes, tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu.


O amor é sim uma construção, é comprometimento, é amadurecimento, é crescimento, exige atenção aos detalhes e disposição. Mas, já dizia Mário Quintana, o amor é também igual a uma borboleta: quando você tenta pegá-la, ela foge, mas quando você está distraído, ela vem e pousa em você.




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Antes de ler As 5 linguagens do amor, do Gary Chapman, eu já havia sido apresentada a esse conceito, mas não tão profundamente. Depois de ler o livro, eu entendi melhor as minhas linguagens do amor e aprendi algumas dicas pra identificar as das pessoas com quem eu me relaciono, pra que a gente possa se comunicar melhor, pra que a gente possa se amar melhor.

É que antes eu achava que era tão óbvio o que eu fazia e o que eu pedia, mas aí entendi que as pessoas falam linguagens diferentes. Às vezes o que é óbvio pra gente não é óbvio pro outro, e vice-versa.

Quando eu era pequena, nos dias chuvosos em que não podia sair pra brincar na minha floresta - também chamada de jardim pelos adultos - onde eu fazia chás mágicos com as plantas, eu me sentava no tapete da sala e assistia toda a programação da TV Cultura. A minha avó portuguesa, sempre rígida, sempre séria, me trazia um pratinho com sanduíches de bolacha maisena com margarina e uma xícara de chá. Ela nunca disse que me amava. Talvez alguém que nasceu em 1924 e veio pro Brasil com 15 anos de navio fugindo da guerra não tenha aprendido a dizer isso às pessoas. Eu também nunca precisei que ela me dissesse. Cada vez que ela vinha com o pratinho com os sanduíches de bolacha maisena com margarina e uma xícara de chá, eu sabia. Atos de serviço era a forma dela de demonstrar amor. Provavelmente essa também era a forma dela de se sentir amada.

Quando eu era pequena a minha tia me dava milhares e milhares de presentes. Quando eu cresci, ela continuou dando. Eu não gostava. Me sentia numa tentativa de ser comprada. Minha mãe sempre me disse que minha tia me amava muito, mas eu não me sentia amada assim. Essa não era a minha linguagem do amor, mas era a dela. Ela me dava presentes porque essa era a forma dela dizer que me amava.

Quando eu era pequena, a minha mãe costurava mil fantasias pra mim, me montava, tirava mais mil fotos. Eu era a boneca dela. Passávamos as tardes brincando no tapete com as minhas Barbies, às vezes entrávamos em um mundo de fantasia, fazíamos uma caverna com almofadas e lençóis pra nos escondermos de um urso feroz - que era a minha Poodle micro toy chamada Sophia, menor que uma régua de 30 cm. Com a minha mãe eu aprendi a amar e ser amada através do tempo de qualidade.

A minha avó materna me ensinou a gostar de abraços, a me sentir segura dentro deles. Eu não sei quantas fotos tenho no colo dela. Cada vez que ela me abraça, ela me aperta e me diz "mas é linda, né?". Minha mãe diz que quando ela era criança, minha avó dizia que minha mãe podia fazer qualquer coisa, que se minha mãe não conseguisse fazer alguma coisa, então ninguém conseguia. Ela me ensinou a ser amada pelo toque físico e, do jeito dela, ela amou através das palavras de afirmação.

Numa vida corrida, online 24 horas por dia, onde tudo é efêmero, onde subimos as timelines olhando imagens de relance e fazendo leituras dinâmicas com medo de perder alguma coisa no turbilhão de informações, não percebemos que perdemos ao não parar pra observar as miudezas da vida. O amor está nos detalhes. Você consegue prestar atenção neles?

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Essa semana estava conversando com um amigo, uma conversa rotineira sobre relacionamentos. Ele me disse que teve um insight: que a gente vai passando por vários perrengues amorosos ao longo da vida, mas conforme vamos amadurecendo, criamos um sentido aranha que nos livra desses perrengues só de olhar pras pessoas e por isso quanto mais velhos e maduros, mais sozinhos ficamos também. Disso passamos para a preguiça de conhecer pessoas novas. E daí novamente para "será que existe esse amor leve que dá tudo certo e não precisa se esforçar pra caralho?".


A divagação continuou na conversa e, pra mim, também fora dela. Na minha rotina diária de escrita, refletindo sobre a minha resposta a essa pergunta, fui eu que tive um insight.


Eu amo o amor. Eu busco ativamente pela ideia de um relacionamento hollywoodiano, onde até tem um desafio ou outro, mas no fim dá tudo certo e eles vivem felizes para sempre, porque, afinal, foram feitos um para o outro, eles se completam - e tudo isso em no máximo 120 minutos. Mas na vida real ninguém chega pronto e aí, poxa, não quero esse trabalho de construir uma relação, eu quero uma relação pronta, no máximo um hot pocket que só precisa de uns minutinhos pra ficar bom. E porque quero alguém pronto, eu exijo perfeição do outro, ignorando completamente o fato de que eu sou totalmente imperfeita, porque no fim das contas eu valho super a pena e o outro que lute pra se adaptar a mim, porque euzinha aqui não só não vou fazer nada pra me adaptar ao outro, como também vou sair correndo ao menor sinal de que ele não corresponde à minha idealização. (E cara, aqui não tô falando do maluco que me trata mal e eu devia me adaptar a essa merda toda como se fosse ok, não tô falando do outro lá que me diminui, me poda, me controla, tô falando do basicão da adaptação mesmo, tá?).

Quando falo que quero um relacionamento fácil, tô partindo de uma utopia. Quero alguém que tenha meu manual de instruções e aja sempre de acordo com a minha visão de mundo. Mas como eu posso ter isso quando eu tô me relacionando com o outro? Como posso ter isso se aquilo que é meu, é muito meu? Porque foi construído a partir da minha criação, das minhas experiências de vida, da minha experimentação do mundo. E aí quando decido colocar mais alguém na minha vida eu preciso fazer um jogo de equilíbrio com meu mundo em uma mão e o mundo do outro na outra mão, pra então viver entre os dois, tendo a consciência de que esses mundos vão continuar sendo dois, não vão se fundir pra se tornarem um só.

Tem que ter critérios sim. Tem que saber o que no outro é importante pra você. Mas a imagem mental que a gente tem de relacionamento é encontrar aquela pecinha do quebra-cabeça que tava faltando na gente, pra gente finalmente ficar completo, quando na real a gente já é o quebra-cabeça inteiro! A outra pessoa não vai se encaixar perfeitamente na gente, ela pertence a outro quebra-cabeça.


Então, talvez, ao invés de tentar ser a peça que falta no outro ou de procurar no outro a peça que nos falta, a gente possa escolher ser um quebra-cabeça inteiro e encontrar outro que também seja e que harmonize com o nosso pra fazer linda uma composição.



Ps.: meu amigo ainda tá solteiro, faz terapia e é bonitão.

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A Falsa Feminista